
Outra cidade, outra semana, outro cardápio de destaques. Londres é parada obrigatória para grandes nomes e rebeldes independentes, onde as passarelas ganham um viés teatral, político ou até viram pistas de dança noturnas. Nesta semana, vimos “móveis-modafi” (quando mobiliário vira moda), templos de papel-machê, joias que soam como armaduras e até o próprio Jonathan Anderson derramando seu blend de chá com gosto de café. Ou seja: Londres fazendo o que sabe melhor — transformando a cidade inteira numa grande performance.

JW ANDERSON: MEMÓRIAS TRANSFORMADAS EM OBJETOS DE CASA
Pela primeira vez, em vez de uma passarela, Anderson nos convidou para seu próprio “sala de estar” (quase literal). Em sua loja em Soho, apresentou móveis e objetos domésticos únicos, extraídos de memórias pessoais — desde sua infância até suas viagens e até jardinagem.
Uma caneca foi recriada a partir da que ele usava todos os dias; mocassins traziam as marcas das andanças da vida; uma regadora antiga virou objeto de coleção. Almofadas foram recheadas com lavanda, não para sentar, mas para perfumar o ambiente. As cadeiras vieram de materiais incomuns, pesados, transformando silhuetas simples em tesouros. E, com o toque final, o chá servido era de um blend criado por ele — substituindo o café, mas tentando ter o mesmo sabor.

CHOPOVA LOWENA: UM “PEP RALLY” GÓTICO NO COLÉGIO
Chopova Lowena, dupla londrina já conhecida por desdobrar saias com carabiners e patchworks de fronhas, foi além dos limites habituais. A cena: um ginásio no oeste de Londres virou um universo febril com mascotes infláveis, arquibancadas de espuma, cheiros que surgem nos bleachers — e até salgadinhos de pepino distribuídos no ambiente.
Na passarela, saias que abrem e fecham em camadas, barras cravadas com charms, tutus de malha metálica “colidindo” com blusas varsity, e cintos que remetem às raízes bálcãs da marca. Depois de temporadas mais contidas, a cor retorna com força: neons, pastéis, estampas, acabamentos, texturas — tudo colidindo como uma noite de formatura que virou caos. Embora visualmente barulhenta, a marca manteve a costura habilidosa, mostrando que há propósito por trás do espetáculo.

DILARA FINDIKOGLU: METAL TURCO COMO ARMADURA SIMBÓLICA
Dilara constrói moda como narrativa, não apenas como roupa. Nesta temporada, ela transformou joias de metal turco em peças de face cage e máscaras — mais que acessório, resistência. Sua coleção “Cage of Innocence” conta um relato pessoal: ela cresceu em uma família conservadora turca, lidando com as noções de pureza e inocência impostas às mulheres.
Modelos desfilavam com cadeias e botas, em um clima ritualístico. As peças metálicas, garimpadas em bazares de Istambul e torcidas em artefatos estranhos, soam agressivas à primeira vista, mas logo revelam-se coroas ou escudos simbólicos. São armas no palco.

AARON ESH: MODA DE CLUBE NAS PASSARELAS
Aaron Esh transportou sua coleção primavera 2026 para o Oval Space, em Hackney — antigo espaço de raves. O clima era de festa e subversão. A base era masculina: jaquetas bem cortadas, calças de smoking, pantalonas de couro, camisas de inspiração militar — porém, modelos femininas também vestiam esses cortes.
Ele colaborou com o icônico alfaiate da Savile Row, Charlie Allen, criando uma ponte entre tradição e contracultura. Botas pesadas e bonés desenvolvidos com o coletivo Post Party trouxeram o DNA da vida noturna londrina para o desfile. Resultado: alta-costura com energia de clube, e uma mulher Esh que domina os dois universos.

DI PETSA: MITOLOGIA GREGA EM CENA
Para sua primeira apresentação solo no Vision Hall, King’s Cross, Di Petsa montou um templo mítico: areia, rochas e relíquias de papel-machê. O símbolo central? Um tridente cruzado, aludindo a Poseidon, raiz para a identidade grega da marca.
Nas roupas, estampas com ondas vitruvianas, camisetas com frases como “Fragments of Aphrodite” e “Imitation Poseidon” (uma provocação sobre uma ex-parceira), minis com conchas, bolsas com ex-votos marítimos. Mas ela também adentrou terreno “mais usável”: calças cargo bordadas com quartzo, mini-saias de organza inspiradas em criaturas marinhas e bonés com aspecto desgastado pelo sal e areia. Embora ainda lúdica, a marca mostrou que pode expandir sua estética cult para o uso cotidiano — sem perder a irreverência.