I. A CENA: moda encontra poesia
Na edição SPFW N60, João Pimenta escolheu a Biblioteca Mário de Andrade como palco para sua coleção — um gesto simbólico e potente. Em 2025, a instituição celebra seu centenário, e Pimenta aproveitou esse momento para fundir duas linguagens artísticas: moda e literatura. 
Antes que a primeira modelo pisasse na passarela, o desfile se inicia como um sarau: a atriz Bárbara Paz declama trechos de Macunaíma (Mário de Andrade), Livro do Desassossego (Fernando Pessoa) e Mudar: Método (Édouard Louis).  Ela mesma reconheceu que o convite foi tardio, mas disse com firmeza que toparia “só se for lendo Fernando Pessoa”. 
Esse gesto transforma o desfile em monólogo e ritual — os livros não ficam nas estantes, mas invadem o corredor de luzes, cores e tecidos, como se também servissem de figurinos.
II. Da inspiração à construção: um processo sensível
No backstage, Pimenta foi enfático: a coleção não parte de temas fixos ou narrativas externas. Ele disse que o ponto de partida é “questões reais” — quem é o homem que usará essas roupas? 
A partir daí, o trabalho técnico se torna poético. Ele expôs sua preocupação térmica: tirou forros, eliminou estruturas internas nos paletós, escolheu tecidos leves.  Essas intervenções visam adequar o formal ao clima brasileiro, tornando a alfaiataria mais respirável, menos rígida, mas sem perder sua identidade.
Na voz do estilista: “mexemos na construção das roupas … nessa busca encontramos um homem que é diverso, colorido, sexy”. 
A coleção estabelece uma ponte entre história da moda e realidade contemporânea: identidade, conforto, autenticidade — valores que, segundo Pimenta, definem sua marca. 
III. A estética: formas, cores e contrastes
A coleção brinca com silhuetas que se transformam: às vezes retas, às vezes fluidas; ora volumosas, ora ajustadas; ora com sobreposições, ora minimalistas. 
As cores são majoritariamente neutras — branco, off-white, grafite, diversos tons de azul —, mas sempre com pontuações em laranja, seja em cintos, tops ou acessórios. 

Nos detalhes: paletós com lapelas exageradas, barras alongadas, assimetrias que rompem o óbvio. Peças utilitárias foram integradas ao guarda-roupa clássico — tecidos leves que ganham bolsos, cintos, recortes inesperados. 
A alfaiataria tropical de Pimenta é ousada, com cores que escapam do neutro nos detalhes e construções pensadas para o corpo tropical, com movimento e leveza.
IV. O homem que veste: uma persona em mutação
Aqui não há herói ou arquétipo fixo — há um homem plural, que respira a cidade quente, que pede conforto e identidade, que é sensual e prático.
João Pimenta não apresenta um personagem, mas lança um convite: ao vestir essas peças, o usuário incorpora — ou projeta — sua versão multifacetada.
No desfile, essa persona era visível: mulheres com toques andróginos, homens assumindo transparências e recortes; figuras que atravessam gêneros e expectativas.
V. Impacto e legado: moda além da passarela
Esse desfile-sarau marca um posicionamento estético: a roupa como voz, a moda como poesia. Ele sugere que a moda não deve se limitar à estética visual, mas dialogar com memória, literatura, identidade e tempo.
Na Adams Magazine, vale evidenciar como Pimenta:
• integra memória cultural ao contemporâneo,
• adapta a alfaiataria ao clima e ao corpo brasileiro,
• questiona modelos estéticos tradicionais do masculino,
• reafirma que o vestir pode ser performativo, íntimo e político.
VI. Proposta visual para a edição
Capa dupla interna: fotografia com luz suave e cenografia da Biblioteca Mário de Andrade, com a superposição de textos literários (como se fossem sombras de páginas) sobre os looks.
Box de destaque (entre colunas):
“Não falamos sobre temas ou personagens — falamos de quem é quem veste.” — João Pimenta
Sequência fotográfica:
1. Bárbara Paz na declamação;
2. Detalhes dos recortes, lapelas, cintos laranja;
3. Silhuetas amplas e sobreposições;
4. Looks femininos/masculinos com fluidez transversal.
Chamadas para mídias digitais:
• “Quando os livros vestem o corpo: João Pimenta em desfile-sarau.”
• “Alfaiataria tropical: do forro à transparência, um novo código visual.”